Nossa Senhora das Dores
Festa em 15 de setembro.
Quem foi
O dia 15 de setembro não celebra um nascimento nem uma morte: celebra uma cena. O elogio com que o Martirológio Romano abre a data — transcrito aqui na grafia portuguesa da fonte — diz o que se comemora: “Memória de Nossa Senhora das Dores, que, estando de pé junto à cruz de Jesus, foi associada íntima e fielmente à paixão salvífica do seu Filho e se apresentou como a nova Eva, de modo que, assim como a desobediência da primeira mulher conduziu à morte, assim a admirável obediência da Virgem Maria trouxe a vida.” Repare que a própria data é uma nota de rodapé de outra: ela cai no dia seguinte à Exaltação da Santa Cruz. Este perfil segue as fontes listadas no fim da página, e para onde elas param.
A cena que a memória guarda
A memória se apoia numa passagem do Evangelho de João, que o Vatican News cita assim: «Junto à Cruz de Jesus, estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena. Jesus, ao ver sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava, disse-lhe: “Mulher, eis o teu filho!” Depois, disse ao discípulo: “Eis a tua Mãe!” Desde então, o discípulo a levou consigo» (Jo 19,25-27). A mesma página lê o vocativo com atenção: ao chamá-la “Mulher”, Jesus faz referência a Eva — “Ela se chamará mulher” (Gn 2,23) —, e daí a leitura de Maria como a nova Eva, que é exatamente o que o elogio do Martirológio afirma.
De quando vem a devoção, e onde as fontes divergem
Aqui as fontes não contam a mesma história, e vale registrar as duas. O Vatican News diz que a devoção à “Mater Dolorosa”, muito difundida sobretudo nos países do Mediterrâneo, “desenvolveu-se a partir do final do século XI”, e que as primeiras celebrações litúrgicas aparecem no século XV. Uma reportagem da CNBB de 2021 situa o começo mais tarde: os primeiros registros viriam da Alemanha “por volta do ano 1221” e, “por volta de 1239, a veneração à santa chegou à Itália”; o mesmo texto diz que ela é venerada na liturgia da Igreja desde o século XIII. Este perfil não escolhe entre as duas datações. O que as duas fontes têm em comum é a Ordem dos Servos de Maria, nascida em 1233 conforme o Vatican News, apontada como a grande difusora do culto.
A data que mudou várias vezes antes de parar em 15 de setembro
O calendário demorou a fixar o dia, e o Vatican News lista as etapas. Em 1668, os membros da Ordem dos Servos de Maria receberam autorização para celebrar a Missa votiva das Sete Dores de Maria. Em 1692, o Papa Inocêncio XII permitiu a celebração oficial no terceiro domingo de setembro. Em 18 de agosto de 1714, ela foi transferida para a sexta-feira que precedia o Domingo de Ramos. Em 18 de setembro de 1814, Pio VII estendeu a festa litúrgica a toda a Igreja, de volta ao terceiro domingo de setembro. E foi Pio X — morto em 1914, informa a mesma página — quem determinou que a celebração fosse em 15 de setembro, um dia depois da Exaltação da Santa Cruz, e sob o título “Nossa Senhora das Dores”, e não “Sete Dores de Maria”.
Uma tensão dentro da própria fonte
A página do Vatican News abre dizendo que, em 1814, o Papa Pio VII incluiu a devoção no calendário litúrgico romano, “fixando-a em 15 de setembro, no dia seguinte à festa da Exaltação da Santa Cruz” — e depois, no mesmo parágrafo, conta que em 18 de setembro de 1814 Pio VII estendeu a festa a toda a Igreja com ela voltando ao terceiro domingo de setembro, até Pio X. As duas frases não fecham entre si, e este perfil registra isso em vez de escolher uma. O artigo do cardeal Orani João Tempesta publicado pela CNBB segue a mesma sequência de datas. Quanto ao ano da decisão de Pio X, uma matéria da CNBB de 2020 a situa em 1913; o Vatican News não dá ano, e dá apenas a morte do papa.
As sete dores, na enumeração do cardeal Orani
Num artigo publicado pela CNBB em 12 de abril de 2022, o cardeal Orani João Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro, enumera as sete dores meditadas na Semana Santa: as profecias de Simeão (Lc 2,34-35); a fuga para o Egito; a procura de Jesus perdido em Jerusalém; o encontro com Jesus no caminho do calvário; Maria de pé junto à cruz do Filho; Maria recebendo o corpo retirado da cruz; e o sepultamento, “à espera da ressurreição”. É da primeira delas que vem o traço mais reconhecível das imagens: “Simeão diz a Maria que uma espada de dor lhe atravessaria a alma, por isso, algumas imagens de Nossa Senhora das Dores têm uma espada no peito.”
Um título que não vem de aparição nenhuma
O cardeal Orani, em artigo publicado pela CNBB em 15 de setembro de 2025, marca a diferença: este título “não está ligado a um local específico de aparição, mas à imensa dor que Maria sentiu ao ver o seu Filho condenado, preso e morto na cruz”. A reportagem da CNBB de 2021 recolhe os outros nomes da mesma devoção — Nossa Senhora da Piedade, “quando Jesus foi colocado em seu colo”, e Nossa Senhora da Soledade, “quando Maria ficou em angustiante solidão durante o sepultamento de Jesus” —, além de Nossa Senhora das Angústias, da Agonia, das Lágrimas, das Sete Dores, do Calvário, do Monte Calvário, Mãe Soberana e Nossa Senhora do Pranto. O cardeal Orani acrescenta ainda Nossa Senhora da Consolação.
O que a CNBB relata sobre a devoção das sete Ave-Marias
Uma matéria da CNBB de 15 de setembro de 2020 registra que Santa Brígida da Suécia diz, em suas revelações “aprovadas pela Igreja”, que Nossa Senhora prometeu conceder sete graças a quem rezar, cada dia, sete Ave-Marias em honra de suas dores e lágrimas, meditando sobre elas. A mesma matéria traz a palavra do arcebispo emérito de Juiz de Fora, dom Eurico dos Santos Veloso: “A Memória da Virgem das Dores, Senhora do Silêncio, nos faz refletir d’Aquela que, mesmo com o coração traspassado por uma espada de dor ao vivenciar o seu Filho Amado na Paixão e Morte de Cruz, Maria nos ensina a esperar e confiar nos planos e desígnios de Deus.” E fecha com a invocação: “Nossa Senhora das Dores, Senhora do Monte Calvário, rogai por nós!”
Padroado
- Mães enlutadas e quem carrega a perda de um filho: o cardeal Orani João Tempesta, em artigo publicado pela CNBB, pede que se reze por “tantas mães que sofrem pela perda de seus filhos, sepultando-os antes do tempo”
- A diocese de Caruaru, em Pernambuco, citada pela CNBB entre os lugares dos quais ela é padroeira
- Minas Gerais, de que ela é padroeira sob o título de Nossa Senhora da Piedade, segundo a mesma reportagem da CNBB
- Quem procura consolo na dor: a CNBB registra que ela é também conhecida como Nossa Senhora da Consolação, “porque consola, fortalece, conforta e reacende a esperança”
Perguntas frequentes
O que a Igreja celebra em 15 de setembro?
A memória de Nossa Senhora das Dores. O Martirológio Romano a descreve como aquela “que, estando de pé junto à cruz de Jesus, foi associada íntima e fielmente à paixão salvífica do seu Filho e se apresentou como a nova Eva”. Não se celebra um nascimento nem uma morte, e sim a Mãe associada à paixão do Filho.
Por que a memória de Nossa Senhora das Dores cai justamente em 15 de setembro?
Porque é o dia seguinte à Exaltação da Santa Cruz. Segundo o Vatican News, foi Pio X quem determinou que a celebração fosse em 15 de setembro, um dia após aquela festa, e sob o título “Nossa Senhora das Dores”, e não “Sete Dores de Maria”. Antes disso, o dia mudou várias vezes: terceiro domingo de setembro em 1692, sexta-feira anterior ao Domingo de Ramos em 1714 e de novo o terceiro domingo de setembro em 1814.
Quais são as sete dores de Nossa Senhora?
Na enumeração do cardeal Orani João Tempesta, em artigo publicado pela CNBB: as profecias de Simeão; a fuga para o Egito; a procura de Jesus perdido em Jerusalém; o encontro com Jesus no caminho do calvário; Maria de pé junto à cruz; Maria recebendo o corpo retirado da cruz; e o sepultamento, à espera da ressurreição.
Nossa Senhora das Dores está ligada a alguma aparição?
Não. O cardeal Orani João Tempesta, em artigo publicado pela CNBB, explica que este título, diferente de outros, “não está ligado a um local específico de aparição, mas à imensa dor que Maria sentiu ao ver o seu Filho condenado, preso e morto na cruz”.
Por que as imagens de Nossa Senhora das Dores trazem uma espada?
Pela primeira das sete dores. Como escreve o cardeal Orani João Tempesta em artigo publicado pela CNBB, “Simeão diz a Maria que uma espada de dor lhe atravessaria a alma, por isso, algumas imagens de Nossa Senhora das Dores têm uma espada no peito”.
Desde quando existe a devoção a Nossa Senhora das Dores?
As fontes divergem. O Vatican News diz que a devoção à “Mater Dolorosa” se desenvolveu a partir do final do século XI, com as primeiras celebrações litúrgicas no século XV. Uma reportagem da CNBB situa os primeiros registros na Alemanha por volta do ano 1221, com a veneração chegando à Itália por volta de 1239. As duas apontam a Ordem dos Servos de Maria como difusora do culto.
Fontes
Tudo o que está nesta página vem das fontes abaixo. Os links abrem o texto original.
- Martirológio Romano — elogio de 15 de setembro (elogio 1: Memória de Nossa Senhora das Dores), Secretariado Nacional de Liturgia
- Vatican News — Nossa Senhora das Dores (Festas Litúrgicas): a Mater Dolorosa, as mudanças de data até Pio X e a leitura de Jo 19,25-27
- CNBB — Em 15 de setembro, Igreja celebra memória de Nossa Senhora das Dores ou Mater Dolorosa (15/09/2020): dom Eurico dos Santos Veloso e as sete graças relatadas por Santa Brígida
- CNBB — Igreja celebra neste 15 de setembro Nossa Senhora das Dores, mais uma invocação dirigida à Mãe da Igreja (15/09/2021): os outros títulos, Caruaru e Minas Gerais, e a origem da devoção
- CNBB — As sete dores de Nossa Senhora, artigo do cardeal Orani João Tempesta (12/04/2022): a enumeração das sete dores e a espada de Simeão
- CNBB — Nossa Senhora das Dores, artigo do cardeal Orani João Tempesta (15/09/2025): o título sem aparição, a Ordem dos Servos de Maria e a sequência de datas até Pio X