São Mateus, apóstolo e evangelista
Festa em 21 de setembro.
Quem foi
O Martirológio Romano abre o dia 21 de setembro com ele, e o elogio conta a vida inteira numa frase só: «Festa de São Mateus, Apóstolo e Evangelista, denominado Levi, que, chamado por Jesus para O seguir, deixou a sua função de publicano ou cobrador de impostos e, admitido entre os Apóstolos, escreveu um Evangelho, no qual se proclama especialmente que Jesus Cristo é filho de David, filho de Abraão, Aquele que levou à plenitude a promessa do Antigo Testamento.» Não há ali data de nascimento, nem de morte, nem lugar de sepultura — e não é descuido do livro. Bento XVI, ao dedicar-lhe uma catequese, começou reconhecendo o mesmo limite: apresentar completamente a figura dele «é quase impossível, porque as notícias que lhe dizem respeito são poucas e fragmentadas». O que se pode fazer, disse, não é um esboço de biografia, mas o perfil que o Evangelho transmite.
O publicano, e o que essa palavra queria dizer
O nome hebraico dele significa «dom de Deus», e o primeiro Evangelho canônico o apresenta na lista dos Doze com uma qualificação que Bento XVI chamou de «bem clara»: «o publicano». O peso do rótulo não era só moral. Mateus «não só administrava dinheiro considerado impuro devido à sua proveniência de pessoas estranhas ao povo de Deus, mas colaborava também com uma autoridade estrangeira odiosamente ávida, cujos tributos podiam ser determinados também de modo arbitrário». Francisco foi mais direto ao descrever a mesma posição: era alguém que cobrava tributos em nome do império romano que ocupava a Palestina — «em síntese, era um colaboracionista, um traidor do povo». E a CNBB acrescenta o detalhe brasileiro da suspeita: muitos cobradores eram acusados de reter parte do dinheiro destinado ao império, e por isso o ofício fazia dele um pecador público.
«Levantou-se e seguiu-o»
A cena da chamada cabe em uma linha: «Partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado no posto de cobrança, e disse-lhe: “Segue-me!”. Ele levantou-se e seguiu-o.» Bento XVI leu naquela pressa uma resposta inteira: a concisão da frase «ressalta claramente a prontidão de Mateus», e o gesto significava para ele «o abandono de todas as coisas, sobretudo do que lhe garantia uma fonte de lucro seguro». Naquele «levantar-se», concluiu, «é legítimo ver o abandono de uma situação de pecado e ao mesmo tempo a adesão consciente a uma existência nova, recta, na comunhão com Jesus». Francisco reparou no mesmo verbo por outro ângulo: naquela época quem estava sentado tinha poder sobre os que ficavam de pé diante dele, e «a primeira coisa que Jesus faz é separar Mateus do poder», pondo-o em movimento rumo aos outros.
À mesa com os pecadores
O escândalo veio logo depois, à mesa. Segundo o Vatican News, Levi organizou um grande banquete para Jesus, que aceitou e participou com os discípulos; escrivães e fariseus se escandalizaram porque da festa participaram também publicanos e pecadores. Foi ali que Jesus disse a frase que, diz a mesma página, impressionou Mateus: «Os sãos não precisam de médico, mas, sim, os doentes», acrescentando: «Eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores.» Bento XVI tirou dela o primeiro dado sobre o caráter de Jesus — «Jesus não exclui ninguém da própria amizade» — e lembrou a anotação de São João Crisóstomo: só em algumas chamadas o Evangelho menciona o trabalho de quem é chamado, e os dois mencionados são de pouca importância, «porque não há nada mais detestável do que um cobrador de impostos e nada de mais comum do que a pesca».
Cafarnaum, à beira-mar
De onde ele trabalhava, o Evangelho não diz com todas as letras — mas deixa a pista. Bento XVI a seguiu: o trecho que precede imediatamente a narração da chamada refere um milagre realizado por Jesus em Cafarnaum e menciona a proximidade do Mar da Galileia, isto é, do Lago de Tiberíades. «Disto pode deduzir-se que Mateus desempenhasse a função de cobrador em Cafarnaúm, situada precisamente “à beira-mar”.» É uma dedução, e o Papa a apresentou como tal — o mesmo cuidado que o resto desta página tenta guardar. Depois da chamada, observou Francisco, Jesus não o leva para longe: vai justamente à casa dele. O zelo apostólico de Mateus «não começa num lugar novo, puro, num lugar ideal, distante, mas lá, começa onde vive, com as pessoas que conhece».
O Evangelho que leva o nome dele
«A tradição da Igreja antiga concorda na atribuição a Mateus da paternidade do primeiro Evangelho», resumiu Bento XVI — e ela é antiga mesmo. Papias, bispo de Hierápoles na Frígia por volta do ano 130, escreveu que «Mateus reuniu as palavras (do Senhor) em língua hebraica, e cada um as interpretou como podia». O historiador Eusébio de Cesareia acrescentou que Mateus, «que primeiro tinha pregado aos hebreus, quando decidiu ir também a outros povos escreveu na sua língua materna o Evangelho por ele anunciado». Esse original não chegou até nós: «Já não temos o Evangelho escrito por Mateus em hebraico ou em aramaico», diz o Papa. O Vatican News registra que o texto foi escrito, quase com certeza, em aramaico, e que os destinatários eram cristãos de origem judaica — daí o realce de que Jesus é o Messias que cumpre as promessas do Antigo Testamento.
«Miserando atque eligendo»
Há uma homilia de São Beda, o Venerável, sobre esta vocação que a Liturgia das Horas reproduz na festa de São Mateus. Nela, comentando o episódio, Beda escreve: «Vidit ergo Iesus publicanum et quia miserando atque eligendo vidit, ait illi Sequere me» — «Viu Jesus um publicano e dado que olhou para ele com sentimento de amor e o escolheu, disse-lhe: Segue-me.» Dessa linha saiu o lema episcopal e depois pontifício do Papa Francisco, e a razão é biográfica: segundo o portal da Santa Sé, na festa de São Mateus do ano de 1953 o jovem Jorge Bergoglio, com dezessete anos, experimentou de modo totalmente particular a presença amorosa de Deus na vida dele; depois de uma confissão, sentiu o coração ser tocado e a descida da misericórdia de Deus, que o chamava à vida religiosa.
A tela de Caravaggio
Para imaginar a cena da chamada, sugeriu Bento XVI, «é suficiente recordar a magnífica tela de Caravaggio, conservada aqui em Roma na Igreja de São Luís dos Franceses». O Vatican News data a «Vocação de São Mateus» entre 1599 e 1600 e explica por que ela funciona: a luz tem papel fundamental e, como símbolo da graça, não vem da janela, mas de Jesus; o dedo de Jesus aponta para Mateus, e ele aponta para si mesmo, como que pedindo confirmação da própria chamada. A mesma página liga o quadro ao lema: a vocação de São Mateus e a pintura de Caravaggio marcaram a vida de Francisco, que numa entrevista ao padre Antônio Spadaro, publicada na revista «La Civiltà Cattolica», se autodefiniu «um pecador, ao qual o Senhor dirigiu o seu olhar».
Como ele morreu: o que as fontes dizem, e o que não dizem
Aqui as fontes deste perfil divergem, e é mais honesto mostrar a divergência do que escolher uma. O Vatican News escreve que, «segundo algumas fontes, Mateus teria morrido por causas naturais», enquanto «segundo algumas tradições, consideradas pouco críveis, a sua existência terminou na Etiópia». A CNBB, que narra a pregação dele na Arábia, na Pérsia e depois na Etiópia, reconhece que «não se sabe ao certo como morreu o apóstolo», embora o trate como mártir e explique por aí a cor litúrgica vermelha da festa. O Martirológio Romano, que costuma fechar os elogios com a marca do ano ou da morte, não põe nenhuma no dele. Nenhuma data de nascimento ou de morte aparece em qualquer dessas fontes — e por isso nenhuma aparece nesta página.
Salerno, e o homem do Apocalipse
As relíquias dele estão hoje na cripta da Catedral de Salerno, no sul da Itália, e é lá que o santo é festejado em 21 de setembro com uma solene procissão — a informação está no Vatican News e se repete na página da CNBB. Da iconografia, o mesmo portal guarda o detalhe que explica por que Mateus aparece tantas vezes acompanhado de uma figura humana ou de um anjo: na descrição dos quatro seres do Apocalipse — águia, boi, leão, homem —, ele é associado àquele com aspecto de homem. No calendário da liturgia, o Evangelho dele é o que se proclama principalmente no Ano A, segundo a CNBB, que situa a redação por volta do ano 60.
- Morte:
- Sem data nem lugar fixados pelas fontes: o elogio do Martirológio Romano de 21 de setembro não traz marca de ano, e o Vatican News registra que, segundo algumas fontes, ele teria morrido por causas naturais, enquanto outras tradições, «consideradas pouco críveis», situam o fim da vida dele na Etiópia
Padroado
- Banqueiros, cambistas, contadores e consultores tributários — a CNBB registra essas categorias entre as que o têm por padroeiro, todas herdeiras do ofício que ele deixou no banco dos impostos
- Alfandegários e cobradores de dívidas — também na lista de categorias que a CNBB põe sob o patrocínio dele
Perguntas frequentes
Por que São Mateus é celebrado em 21 de setembro?
Porque é o dia em que o Martirológio Romano marca a festa dele, com o elogio que o chama «Apóstolo e Evangelista, denominado Levi». As fontes consultadas aqui não explicam a origem da data, e nenhuma delas registra ano de nascimento ou de morte do apóstolo. É também em 21 de setembro que a Catedral de Salerno, onde estão as relíquias, faz a procissão solene em honra dele.
Quem era São Mateus antes de seguir Jesus?
Um cobrador de impostos. Bento XVI explicou o peso disso: ele administrava dinheiro considerado impuro e colaborava com «uma autoridade estrangeira odiosamente ávida, cujos tributos podiam ser determinados também de modo arbitrário». Francisco resumiu como o povo o via: «era um colaboracionista, um traidor do povo». Da pista deixada pelo Evangelho, Bento XVI deduz que ele cobrava em Cafarnaum, à beira do Mar da Galileia.
São Mateus e Levi são a mesma pessoa?
Sim, é o que dizem as fontes deste perfil. O Martirológio Romano o chama «São Mateus, Apóstolo e Evangelista, denominado Levi». Bento XVI observa que Marcos e Lucas narram a chamada do mesmo homem sentado no posto de cobrança, mas o chamam «Levi». A CNBB registra que o nome de batismo dele era Levi e que passou a Mateus depois de aceitar o chamado.
São Mateus é padroeiro de quê?
A CNBB o registra como padroeiro de banqueiros, alfandegários, cambistas, contadores, consultores tributários e cobradores de dívidas — todas categorias ligadas ao ofício que ele exercia quando Jesus o chamou, e que ele deixou para trás ao levantar-se do banco dos impostos.
Foi mesmo São Mateus quem escreveu o primeiro Evangelho?
É o que a tradição antiga da Igreja atribui a ele, e Bento XVI mostra desde quando: por volta do ano 130, Papias de Hierápoles escreveu que «Mateus reuniu as palavras (do Senhor) em língua hebraica». O original não sobreviveu — «já não temos o Evangelho escrito por Mateus em hebraico ou em aramaico», diz o mesmo Papa. O Vatican News registra que o texto foi escrito quase com certeza em aramaico, para leitores cristãos de origem judaica.
Como São Mateus morreu?
Não se sabe, e as fontes divergem. O Vatican News diz que, segundo algumas delas, ele teria morrido por causas naturais, e que as tradições que situam o fim da vida dele na Etiópia são «consideradas pouco críveis». A CNBB narra a pregação na Etiópia, mas admite que «não se sabe ao certo como morreu o apóstolo». O elogio do Martirológio Romano não traz marca de ano nem de martírio.
Fontes
Tudo o que está nesta página vem das fontes abaixo. Os links abrem o texto original.
- Martirológio Romano — elogio de 21 de setembro (São Mateus, Apóstolo e Evangelista)
- Bento XVI — Audiência Geral de 30 de agosto de 2006: Mateus
- Papa Francisco — Audiência Geral de 11 de janeiro de 2023: o chamado ao apostolado (Mt 9, 9-13)
- Santa Sé — O brasão do Papa Francisco e o lema «miserando atque eligendo», da homilia de São Beda sobre a vocação de São Mateus
- Vatican News — Santo do dia: S. Mateus, apóstolo e evangelista
- CNBB — São Mateus Apóstolo