1
Altíssimo, onipotente, bom Senhor, teus são o louvor, a glória, a honra e toda a bênção.
— São Francisco de Assis
Festa em 4 de outubro.
O elogio que o Martirológio Romano dedica ao dia 4 de outubro vem em português de Portugal, como está na fonte, e conta a vida inteira num fôlego: "Memória de São Francisco, que, depois de uma vida despreocupada, se converteu à vida evangélica em Assis, na Úmbria, região da Itália, encontrando Jesus Cristo especialmente nos pobres e tornando-se ele mesmo pobre ao serviço dos necessitados. Reuniu em comunidade consigo os Frades Menores, pregou o amor de Deus a todos nas suas caminhadas, inclusivamente na peregrinação à Terra Santa, mostrando com as suas palavras e atitudes o desejo de seguir a Cristo, e quis morrer deitado sobre a terra nua." A mesma página data a morte em 1226.
Bento XVI, na catequese da audiência geral de 27 de janeiro de 2010, dá o começo com data: o nascimento se deu "entre o final de 1181 e o início de 1182, em Assis". A vida despreocupada de que fala o Martirológio é a de um filho de mercador de tecidos numa cidade rica. O próprio Francisco contou depois onde a coisa virou, e a primeira linha do seu Testamento não fala de um livro nem de um sermão: "Foi assim que o Senhor me concedeu a mim, Frei Francisco, iniciar uma vida de penitência: como estivesse em pecado, parecia-me deveras insuportável olhar para leprosos. E o Senhor mesmo me conduziu entre eles e eu tive misericórdia com eles."
O acontecimento que Bento XVI situa "provavelmente em 1205" é o da igrejinha de São Damião, onde o Crucifixo lhe falou: "Vai, Francisco, e repara a minha Igreja em ruínas." Francisco entendeu ao pé da letra e começou consertando paredes; a reforma pedida era outra e maior. Diante do bispo de Assis, segundo a mesma catequese, ele "despojou-se das suas roupas, com a intenção de renunciar assim à herança paterna". Do que veio depois ele mesmo deixou o registro, no Testamento: "Éramos iletrados e nos sujeitávamos a todos. E eu trabalhava com as minhas mãos e quero trabalhar."
Bento XVI marca os anos seguintes um a um: em 1207, o sonho do Papa Inocêncio III; em 1208, "outro acontecimento fundamental no itinerário da sua conversão"; em 1209, a ida a Roma "para submeter ao Papa Inocêncio III o projecto". A confirmação escrita veio depois, do Papa Honório III, "com a sua bula Cum dilecti de 1218". O que Francisco pedia cabia numa frase, e o Testamento a guarda: o Altíssimo mesmo lhe revelou que devia viver segundo a forma do santo Evangelho. Bento XVI faz questão de registrar que o Pobrezinho de Assis "agiu sempre em plena comunhão com a autoridade eclesiástica".
Em plena cruzada, "em 1219 Francisco obteve a autorização para ir falar, no Egipto, com o sultão", e "parece depois que em 1220 Francisco visitou a Terra Santa" — a peregrinação que o Martirológio menciona. Não foi improviso: a Regra não bulada já trazia um capítulo inteiro sobre os irmãos que quisessem ir viver entre os sarracenos, e o primeiro modo que ele prescreve é abster-se de rixas e disputas, submeter-se a todos por causa do Senhor e confessar-se cristão. Atravessar a linha de frente para conversar era, para ele, matéria de Regra.
"Em 1224, na ermida de La Verna, Francisco vê o Crucificado na forma de um serafim e do encontro com o serafim crucificado, recebeu os estigmas", escreve Bento XVI; "ele torna-se assim um com Cristo crucificado: um dom que expressa a sua íntima identificação com o Senhor". São as cinco chagas da Paixão abertas no corpo de um homem vivo, dois anos antes da morte dele, e é a cena que a arte cristã repete desde então.
Foi já doente e quase cego que ele compôs o que Bento XVI chama de "o célebre Cântico das criaturas", também conhecido como Cântico do Irmão Sol: um louvor a Deus pelo sol, pela lua e as estrelas, pelo vento, pela água, pelo fogo, pela Mãe Terra, pelos que perdoam — e pela "Irmã a Morte corporal, da qual homem algum pode escapar". A irmã de que falava chegou, segundo Bento XVI, na noite de 3 de outubro de 1226. O Martirológio guarda o gesto com que ele a recebeu: quis morrer deitado sobre a terra nua.
A Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil publica a bula de canonização e a resume assim: "No dia 16 de julho de 1228, dois anos depois de sua morte, São Francisco de Assis foi canonizado pelo Papa Gregório IX." É a bula Mira circa nos, dada em Perusa, e é ela que fixa a festa onde ela está até hoje, ao estabelecer "que a Igreja universal celebre devotamente e com solenidade o seu nascimento para o céu no dia 4 de outubro". Sete séculos e meio depois, em 29 de novembro de 1979, João Paulo II o proclamou padroeiro celeste dos cultores da ecologia, na carta apostólica Inter Sanctos.
1
Altíssimo, onipotente, bom Senhor, teus são o louvor, a glória, a honra e toda a bênção.
— São Francisco de Assis
2
Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o senhor Irmão Sol, que clareia o dia e com sua luz nos alumia.
— São Francisco de Assis
3
Louvado sejas, meu Senhor, pela Irmã Lua e as Estrelas, que no céu formaste claras e preciosas e belas.
— São Francisco de Assis
4
Louvado sejas, meu Senhor, pela Irmã Água, que é mui útil e humilde e preciosa e casta.
— São Francisco de Assis
5
Louvado sejas, meu Senhor, por nossa Irmã a Mãe Terra, que nos sustenta e governa, e produz frutos diversos e coloridas flores e ervas.
— São Francisco de Assis
6
Louvado sejas, meu Senhor, pelos que perdoam por teu amor, e suportam enfermidades e tribulações. Bem-aventurados os que as sustentam em paz, que por ti, Altíssimo, serão coroados.
— São Francisco de Assis
7
Louvai e bendizei a meu Senhor, e dai-lhe graças, e servi-o com grande humildade.
— São Francisco de Assis
8
Considera, ó homem, a que excelência te elevou o Senhor, criando-te e formando-te segundo o corpo à imagem do seu dileto Filho e, segundo o espírito, à sua própria semelhança.
— São Francisco de Assis
9
Ao servo de Deus nada deve desagradar senão o pecado.
— São Francisco de Assis
10
Vive realmente sem nada de próprio aquele servo de Deus que não se enraivece nem perturba por causa de ninguém.
— São Francisco de Assis
11
O servo de Deus não pode conhecer em que medida possui a paciência e a humildade, enquanto se sentir satisfeito em tudo.
— São Francisco de Assis
12
São verdadeiramente pacíficos os que, no meio de tudo quanto padecem neste mundo, se conservam em paz, interior e exteriormente, por amor de Nosso Senhor Jesus Cristo.
— São Francisco de Assis
13
Têm o coração puro os que, desprezando as coisas terrenas, procuram as celestiais e, de coração e espírito puros, não cessam de adorar e de ver sempre o Deus vivo e verdadeiro.
— São Francisco de Assis
14
Peca o homem que exige do seu semelhante mais do que ele mesmo daria de si ao Senhor seu Deus.
— São Francisco de Assis
15
Bem-aventurado o homem que suporta o seu próximo com suas fraquezas tanto quanto quisera ser suportado por ele se estivesse na mesma situação.
— São Francisco de Assis
16
Bem-aventurado o servo que, sendo louvado e exaltado pelos homens, não se considera melhor do que quando é tido por insignificante, simplório e desprezível. Porque o homem vale o que é diante de Deus e nada mais.
— São Francisco de Assis
17
Bem-aventurado o servo que recebe as advertências, acusações e repreensões dos outros com tanta paciência como se proviessem dele mesmo.
— São Francisco de Assis
18
Bem-aventurado o servo que ama ao seu confrade enfermo, que não lhe pode ser útil, tanto como ao que tem saúde e está em condições de lhe prestar serviços.
— São Francisco de Assis
19
Aonde há caridade e sabedoria, não há medo nem ignorância. Onde há paciência e humildade, não há ira nem perturbação. Onde à pobreza se une a alegria, não há cobiça nem avareza. Onde há paz e meditação, não há nervosismo nem dissipação.
— São Francisco de Assis
20
Bem-aventurado o servo que guarda em seu coração os segredos do Senhor.
— São Francisco de Assis
21
E todo aquele que deles se acercar, seja amigo ou adversário, ladrão ou bandido, recebam-no com bondade.
— São Francisco de Assis
22
E guardem-se os irmãos de se mostrarem em seu exterior como tristes e sombrios hipócritas. Mas antes, comportem-se como gente que se alegra no Senhor, satisfeitos e amáveis, como convém.
— São Francisco de Assis
23
E saibam que a humilhação não é imputada aos que a sofrem, mas aos que a infligem.
— São Francisco de Assis
24
São, pois, nossos amigos todos aqueles que injustamente nos infligem tribulações e angústias, opróbrios e injustiças, dores e tormentos, martírio e morte. A esses devemos amar muito, porquanto pelo mal que nos fazem teremos a vida eterna.
— São Francisco de Assis
25
Outra coisa não desejemos, nem queiramos, nem nos agrade, nem nos alegre senão o nosso Criador e Redentor e Salvador, o único e verdadeiro Deus.
— São Francisco de Assis
26
E, se algum deles cair doente, os outros irmãos o devem servir, como gostariam de ser servidos.
— São Francisco de Assis
27
E tomem cuidado em não se encolerizar ou perturbar com o pecado de alguém, porque ira e perturbação entravam a caridade em si e em outros.
— São Francisco de Assis
28
Pois assim deve ser, que os ministros sejam servos de todos os irmãos.
— São Francisco de Assis
29
E o Senhor mesmo me conduziu entre eles e eu tive misericórdia com eles. E enquanto me retirava deles, justamente o que antes me parecia amargo se me converteu em doçura da alma e do corpo.
— São Francisco de Assis
30
Éramos iletrados e nos sujeitávamos a todos. E eu trabalhava com as minhas mãos e quero trabalhar.
— São Francisco de Assis
31
Como saudação, revelou-me o Senhor que disséssemos: "O Senhor te dê a paz".
— São Francisco de Assis
32
Tudo o que te parecer conveniente para melhor agradares ao Senhor Deus, imitares os seus passos e a sua pobreza, faze-o com a bênção do Senhor Deus e minha aprovação.
— São Francisco de Assis
33
E se por causa da tua alma ou para qualquer outra consolação precisares e quiseres vir a mim, Frei Leão, vem.
— São Francisco de Assis
34
Portanto, nada de vós retenhais para vós mesmos, para que totalmente vos receba quem totalmente se vos dá!
— São Francisco de Assis
Carta a toda a Ordem dos Frades Menores, 29
35
Gostaria muito que ensinasses aos Irmãos a sagrada teologia, contanto que nesse estudo não extingam o espírito da santa oração e da devoção, segundo está escrito na Regra.
— São Francisco de Assis
Carta a Santo Antônio de Pádua, 2
36
Quem possuir uma de vós e não ofender as demais, a todas possui; e quem a uma ofender, nenhuma possui e a todas ofende.
— São Francisco de Assis
37
A pura e santa simplicidade confunde toda a sabedoria deste mundo e a prudência da carne.
— São Francisco de Assis
38
Peço-vos, pois, com todo o respeito de que sou capaz que, no meio dos cuidados e solicitudes que tendes neste século, não esqueçais o Senhor nem vos afasteis dos seus mandamentos.
— São Francisco de Assis
Carta aos governantes dos povos, 3
Não. Ela apareceu pela primeira vez em 1912, em francês, numa pequena revista espiritual de Paris chamada La Clochette, publicada pela associação La Ligue de la Sainte-Messe, com o título "Belle prière à faire pendant la Messe" — "bela oração para rezar durante a missa" — e sem assinatura. É quase sete séculos depois da morte de Francisco, e o texto não está em nenhum dos escritos dele. O estudo de referência é o do historiador francês Christian Renoux, publicado em 2001. O nome de São Francisco só foi colado à oração em 1927, na França. Isso não a torna ruim: torna-a anônima.
Escreveu, e é dele de verdade. Na 15ª Admoestação: "São verdadeiramente pacíficos os que, no meio de tudo quanto padecem neste mundo, se conservam em paz, interior e exteriormente, por amor de Nosso Senhor Jesus Cristo." E no Testamento ele conta de onde veio a saudação da Ordem: "Como saudação, revelou-me o Senhor que disséssemos: 'O Senhor te dê a paz'." As duas frases estão nesta página, com a fonte ao lado.
O que existe de oficial é outra coisa: em 29 de novembro de 1979, na carta apostólica Inter Sanctos, João Paulo II o proclamou padroeiro celeste dos cultores da ecologia. O elo com os animais vem da devoção popular, alimentada pelo Cântico das Criaturas — em que ele chama o sol de irmão e a terra de mãe — e pelo costume de abençoar animais no dia 4 de outubro. É costume antigo e bonito, mas não é um título formal.
São as cinco chagas da Paixão de Cristo abertas no corpo dele. Bento XVI situa o fato em 1224, na ermida de La Verna, onde Francisco "vê o Crucificado na forma de um serafim e do encontro com o serafim crucificado, recebeu os estigmas". Ele viveu ainda dois anos depois disso e morreu em 1226.
Porque ele morreu na noite de 3 de outubro de 1226, e a Igreja celebra os santos no dia em que morreram — o que a tradição chama de nascimento para o céu. A bula de canonização Mira circa nos, do Papa Gregório IX, de 16 de julho de 1228, estabeleceu "que a Igreja universal celebre devotamente e com solenidade o seu nascimento para o céu no dia 4 de outubro".
O Cântico das Criaturas, também chamado Cântico do Irmão Sol, composto quando ele já estava doente e quase cego. É o louvor que começa "Altíssimo, onipotente, bom Senhor" e vai agradecendo a Deus pelo Irmão Sol, pela Irmã Lua, pelo Irmão Vento, pela Irmã Água, pelo Irmão Fogo, pela Mãe Terra e pela Irmã Morte corporal.
Tudo o que está nesta página vem das fontes abaixo. Os links abrem o texto original.