Exaltação da Santa Cruz
Festa em 14 de setembro.
Quem foi
O dia 14 de setembro não celebra uma pessoa: celebra um objeto, e o que a fé lê nele. O elogio com que o Martirológio Romano abre a data — transcrito aqui na grafia portuguesa da fonte — diz o que se comemora: “Festa da Exaltação da Santa Cruz, que, no dia seguinte à dedicação da basílica da Ressurreição, erigida sobre o sepulcro de Cristo, é exaltada e honrada como o troféu da sua vitória pascal e sinal que há-de aparecer no céu para anunciar a todos a segunda vinda do Senhor.” Repare que a própria data é uma nota de rodapé de outra: ela cai no dia seguinte a uma dedicação de igreja. Este perfil segue as fontes listadas no fim da página e para onde elas param.
A igreja consagrada num dia, a Cruz mostrada no outro
O Vatican News data o episódio: “Em 13 de setembro de 335, foram consagradas, em Jerusalém, duas igrejas: a da Ressurreição e a do Martyrium. No dia seguinte, com uma cerimônia solene, houve a ostensão da Cruz, que a Imperatriz Helena havia encontrado, em 14 de setembro de 320.” A CNBB conta a mesma história com outro ano para o achado e um detalhe a mais: em 13 de setembro de 326, Santa Helena, mãe do imperador Constantino, “por indicação de um habitante de Jerusalém, descobriu no local do Calvário o madeiro da cruz”; demolidas as construções pagãs, ergueu-se ali a basílica cuja dedicação se deu em 13 de setembro de 335, e “no dia a seguir, 14 de setembro, a cruz lá encontrada foi exposta à adoração dos fiéis”. As duas fontes divergem no ano — 320 e 326 —, e este perfil não escolhe por elas.
O que havia no lugar antes
A mesma página da CNBB explica por que foi preciso escavar. No século II, o imperador Adriano (117-138), “para dissuadir o culto cristão em Jerusalém, soterrou o local onde Jesus tinha sido crucificado e sepultado”: pôs uma estátua de Júpiter no lugar do Santo Sepulcro e uma estátua em honra de Vénus no lugar da crucifixão. E o plano não funcionou — “os cristãos, contudo, continuaram a frequentar esses lugares, aí evocando a morte e a ressurreição de Jesus”.
A Cruz levada pelos persas, e a volta
A relíquia saiu de Jerusalém e voltou, e aqui de novo as fontes não contam igual. O Vatican News: “Em 614, Cosroes II, rei dos Persas, travou uma guerra contra os Romanos e, depois de derrotar Jerusalém, levou consigo, entre os diversos tesouros, também a Cruz de Jesus. Heráclio, imperador romano de Bizâncio, propôs um pacto de paz com Cosroes, que não aceitou. Diante da sua negação, entrou em guerra com ele e venceu, perto de Nínive, e pediu a restituição da Cruz, que a levou de volta a Jerusalém.” Um artigo da CNBB resume o mesmo episódio com outro ano e outro destino: “Tomada pelos Persas, no século VII, foi reconquistada pelo imperador Heráclio em 629, que a re-introduziu solenemente na cidade eterna.”
Duas festas que viraram uma, em 1960
A festa é antiga e nem sempre esteve sozinha no calendário. Num artigo publicado pela CNBB em 14 de setembro de 2018, lê-se: “É uma festa muito antiga. Tem suas raízes no século V, ao menos em Jerusalém. Em Roma se celebrava a ‘Invenção, ou seja, o Encontro da Santa Cruz’, no dia 03 de maio. Em 1960, as duas festas foram unificadas.” O mesmo texto lembra que a devoção não nasceu com o cristianismo: “Antes do século IV a Cruz quase não chamou a atenção dos cristãos. Somente após a conversão de Constantino que, motivado por sua mãe, Santa Helena, aboliu o suplício da crucifixão, o que era anteriormente um opróbrio, tornou-se um objeto de veneração.”
Dois Padres da Igreja, na leitura da CNBB
O mesmo artigo põe lado a lado dois pregadores antigos. Ele atribui a São João Crisóstomo — celebrado na véspera, em 13 de setembro — esta exortação: “Não te envergonhes de tão grande bem, se não queres que também Cristo se envergonhe de ti quando vier na sua glória e o sinal da Cruz aparecer mais luminoso que os próprios raios do sol.” E a São Cirilo de Jerusalém, um uso doméstico do sinal da cruz: “Na fronte com desassombro façamos com os dedos o sinal da cruz e tracemos a cruz em tudo: sobre o pão que comemos, sobre o cálice que bebemos; à saída e à volta; antes de dormir; ao deitar e ao levantar; ao andar e ao descansar. É uma grande proteção: gratuita, por causa dos pobres; fácil, por causa dos fracos.”
A cruz vazia, e o Cristo de coroa de ouro
A arte acompanhou essa leitura, e a CNBB descreve a mudança: “Até o século VI, a cruz era vazia, sem a imagem de Cristo. Em seu lugar, eram colocadas pérolas e pedras preciosas. A partir do século VI até o século XII, era comum afixar à cruz a imagem do Cristo vencedor. Em vez de coroa de espinhos, o Cristo tinha em sua cabeça uma coroa de ouro. As pedras preciosas substituíam o sangue e as feridas do Calvário.” É a mesma ideia da antífona das Laudes que o artigo cita: “Adoramos, Senhor, vosso Madeiro; vossa ressurreição nós celebramos. A alegria chegou ao mundo inteiro pela Cruz que nós hoje veneramos.”
O que se lê na missa deste dia
A CNBB registra as três leituras da festa: Números 21,4-9, com a serpente de bronze levantada no deserto; Filipenses 2,6-11, o hino em que Cristo “humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz”; e o Evangelho de João 3,13-17, a conversa com Nicodemos. O Vatican News transcreve esse Evangelho e diz o que a festa exalta: não a crueldade da Cruz, “mas o Amor que Deus manifestou aos homens ao aceitar de morrer na Cruz”. E fecha com uma frase que atribui ao Papa Francisco: “Mesmo sendo Deus, Cristo humilhou-se, fazendo-se servo. Eis a exaltação da Cruz de Jesus!”
Padroado
- Quem venera a Cruz como sinal de vitória, e não de derrota: o elogio do Martirológio Romano deste dia diz que ela “é exaltada e honrada como o troféu da sua vitória pascal”
- Quem espera a segunda vinda do Senhor: o mesmo elogio chama a Cruz de “sinal que há-de aparecer no céu para anunciar a todos a segunda vinda do Senhor”
- Quem carrega sofrimento e procura sentido nele: o Vatican News resume o dia dizendo que nele “não se glorifica a crueldade da Cruz, mas o Amor que Deus manifestou aos homens ao aceitar de morrer na Cruz”
Perguntas frequentes
O que a Igreja celebra em 14 de setembro?
A Exaltação da Santa Cruz. O Martirológio Romano a chama de “Festa da Exaltação da Santa Cruz, que, no dia seguinte à dedicação da basílica da Ressurreição, erigida sobre o sepulcro de Cristo, é exaltada e honrada como o troféu da sua vitória pascal”. Não é a memória de um santo, e sim da própria Cruz.
Por que a festa da Santa Cruz cai justamente no dia 14 de setembro?
Porque é o dia seguinte a uma dedicação de igreja. Segundo o Vatican News, em 13 de setembro de 335 foram consagradas em Jerusalém duas igrejas, a da Ressurreição e a do Martyrium, e no dia seguinte houve a ostensão solene da Cruz. A CNBB conta o mesmo: a dedicação em 13 de setembro de 335 e, “no dia a seguir, 14 de setembro, a cruz lá encontrada foi exposta à adoração dos fiéis”.
Em que ano Santa Helena encontrou a Cruz?
As fontes divergem, e vale saber disso. O Vatican News diz que a Imperatriz Helena encontrou a Cruz em 14 de setembro de 320. A CNBB situa o achado em 13 de setembro de 326, no local do Calvário, por indicação de um habitante de Jerusalém. Este perfil registra as duas datas como cada fonte as dá, sem escolher entre elas.
A Cruz chegou a ser levada de Jerusalém?
Segundo o Vatican News, sim: em 614, Cosroes II, rei dos Persas, derrotou Jerusalém e levou consigo, entre outros tesouros, a Cruz de Jesus; o imperador Heráclio venceu-o perto de Nínive, pediu a restituição da relíquia e a levou de volta a Jerusalém. Um artigo da CNBB dá outro ano e outro destino — reconquistada por Heráclio em 629 e reintroduzida solenemente “na cidade eterna”.
Qual é a diferença entre a Exaltação e a Invenção da Santa Cruz?
Eram duas festas distintas. Conforme o artigo publicado pela CNBB em 14 de setembro de 2018, a Exaltação tem raízes no século V, ao menos em Jerusalém, enquanto em Roma se celebrava a “Invenção, ou seja, o Encontro da Santa Cruz”, no dia 3 de maio. Em 1960 as duas festas foram unificadas.
Quais são as leituras da missa da Exaltação da Santa Cruz?
A CNBB indica três: Números 21,4-9, a serpente de bronze levantada no deserto; Filipenses 2,6-11, o hino em que Cristo se humilha até a morte de cruz e é exaltado pelo Pai; e o Evangelho de João 3,13-17, a conversa de Jesus com Nicodemos.
Fontes
Tudo o que está nesta página vem das fontes abaixo. Os links abrem o texto original.
- Martirológio Romano — elogio de 14 de setembro (elogio 1: Festa da Exaltação da Santa Cruz), Secretariado Nacional de Liturgia
- Vatican News — Exaltação da Santa Cruz (feriados litúrgicos): a consagração de 335, a Cruz levada por Cosroes II e devolvida por Heráclio
- CNBB — Exaltação da Santa Cruz (artigo de 14 de setembro de 2018): a festa de Jerusalém, a Invenção da Cruz em Roma e a unificação de 1960
- CNBB — A cruz é sinal de nossa redenção!: Adriano, o achado de 326 e as leituras da missa do dia
- CNBB — Salve, ó Cruz!: a tomada pelos persas e a reconquista de Heráclio em 629